“É só política”: por que Europa ainda cita o “food or fuel”, diz ex-presidente da Irlanda
Ao lado dela na entrevista, Plínio Nastari, presidente e fundador da Datagro, defendeu uma melhora na comunicação internacional do País. “A gente dá atenção a falácias, conselhos de algumas regiões no sentido de que não pode se fazer isso ou aquilo. É preciso ter sensibilidade no trabalho público; o Brasil serve de exemplo ao mundo de mudança de patamar no agronegócio com sustentabilidade.”
Pobres sofrem mais
Robinson criticou o que vê como um viés socioeconômico no processo de mudanças climáticas. “O multilateralismo se fraturou, e hoje há muita divisão, competitividade e tensão. Seria bom ter um sistema econômico orientado ao bem-estar das pessoas.”
Ela alertou ainda para os riscos implícitos ao El Niño, que neste ano é previsto por meteorologistas com grande chance de se manifestar em intensidade “muito forte”. O fenômeno, afirma, tende a pesar mais sobre os mais pobres.
“Me preocupa a maneira como o fenômeno afetará a segurança alimentar durante o inverno [no hemisfério Norte]. Os mais pobres, que são os menos responsáveis pelas mudanças climáticas e os mais vulneráveis a elas, sofrerão mais.”
Na visão dela, ecoando um pleito muito repetido pelo agronegócio no Brasil, o que a transição ecológica mais precisa é de mecanismos para gerar renda para quem não desmata ou polui. “Seria uma mudança maravilhosa se pudéssemos atribuir um valor econômico à natureza preservada, isso mudaria muita coisa.”
A seu lado, Nastari complementou: “Acredito que sua mensagem — de que o valor da floresta não reside apenas no econômico, mas também na biodiversidade e no potencial de desenvolvimento médico e farmacêutico — é fundamental”.
Retomada?
Em resposta à percepção do The AgriBiz de que neste ano, o sentimento geral de futuro junto ao público de executivos e produtores era mais positivo do que na edição passada do GAFFFF, Nastari respondeu com comedimento.
Segundo ele, apesar da “ligeira melhora” nos preços em algumas cadeias, como soja e açúcar, “permanece a preocupação e a tensão”.
“A agropecuária do Brasil está começando a sair de um momento muito delicado. Juros muito altos, endividamento recorde, preços baixos das commodities até recentemente: não podemos deixar de considerar isso.”
Por outro lado, Nastari considera que o setor está, neste ano, mais disposto a enfrentar narrativas que surgem de fora para dentro.
“E com mais orgulho, com mais intenção de se posicionar no sentido de que somos sustentáveis, sim, e não venham nos impor selos ou rótulos que não colam com a nossa realidade. Essa talvez seja a grande contribuição do GAFFFF.”
Fonte: The AgriBiz



